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Cine Bristol: o cinema que virou símbolo de uma geração em Uberlândia

Entre elegância, modernidade e grandes filas, o Cine Bristol marcou a história cultural da cidade e permanece vivo na memória de quem descobriu a magia do cinema em suas sessões

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Cine Bristol: o cinema que virou símbolo de uma geração em Uberlândia
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Dos cinemas de rua que existiram em Uberlândia, não sobrou nenhum para contar a história.

Houve um tempo em que ir ao cinema era muito mais do que escolher um filme e comprar um ingresso. Era um acontecimento. As pessoas se arrumavam, encontravam amigos, caminhavam pelo centro da cidade e, durante algumas horas, entravam em um universo de histórias, personagens e sonhos projetados em uma grande tela.

Em Uberlândia, poucos lugares traduziram tão bem esse espírito quanto o Cine Bristol.

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Localizado na Avenida Afonso Pena, nº 177, no coração da cidade, o prédio carregava uma história que começava muito antes de receber o nome Bristol. Inaugurado em 10 de outubro de 1928 como Cine Avenida, o espaço foi construído pelo português Joaquim Marques Póvoa e rapidamente passou a fazer parte da vida cultural de Uberlândia. Décadas mais tarde, depois de uma reforma realizada no final dos anos 1970, ganhou o nome de Cine Bristol.

A chegada da modernidade

A transformação do Cine Avenida em Cine Bristol aconteceu em um momento em que o cinema já havia deixado de ser apenas uma novidade tecnológica para se transformar em um dos principais espaços de convivência urbana.

A localização era estratégica. A Avenida Afonso Pena fazia parte da região central onde a população circulava, fazia compras, encontrava amigos e praticava o tradicional footing. Nesse cenário, o Bristol tornou-se mais do que uma sala de exibição: era um ponto de encontro.

Pesquisas sobre a história dos cinemas de Uberlândia descrevem o Bristol como uma referência de charme e elegância. Embora não tivesse as dimensões monumentais dos antigos “palácios cinematográficos”, a sala ocupava um lugar especial entre os espaços de lazer e sociabilidade da cidade.

Em seu período de maior capacidade, o cinema chegou a comportar cerca de 680 espectadores. Posteriormente, uma reforma redimensionou o espaço para aproximadamente 500 lugares, com corredores amplos, bilheteria, sala de espera, bombonière na qual não faltava a famosa Bala Chita, e uma grande tela. Além disso foi o único cinema da cidade a ter uma sala exclusiva para fumantes. Na esquina ficava a Chocolândia que também aproveitava do público para vender balas e chocolates, que faziam a alegria durante o filme.

Para quem viveu aquela época, todos esses detalhes ajudavam a construir uma experiência que hoje parece distante: o passeio até o centro, a expectativa diante dos cartazes, o movimento na bilheteria, e a espera pelo momento em que as luzes se apagavam.

O cinema como ponto de encontro

O Bristol ajudou a consolidar uma tradição que já fazia parte da história de Uberlândia: a de transformar o cinema em espaço de encontro.

A própria Prefeitura de Uberlândia, ao realizar em 2025 uma exposição sobre a história dos cinemas da cidade, destacou que essas salas não eram apenas locais destinados à exibição de filmes. Eram também centros de encontro, onde moradores compartilhavam experiências culturais e momentos de convivência.

E o Bristol levou essa característica para as décadas de 1980 e 1990.

As filas na porta podiam tomar os quarteirões próximos ao cinema. Uma pesquisa acadêmica sobre o período registra a existência de verdadeiras filas quilométricas em determinadas sessões, mostrando a força que o cinema ainda exercia sobre o público uberlandense. Principalmente aos finais de semana, as filas indicavam que o filme era um sucesso e que valia a pena ir assistir. O auge do sucesso foi "Titanic" que lotava todas as sessões inclusive durante a semana.

O fenômeno também ultrapassava o entretenimento. O Cine Bristol recebeu campanhas beneficentes e sessões especiais destinadas à arrecadação de recursos. Entre os exemplos registrados estão exibições vinculadas a campanhas sociais e uma sessão de “Lua de Cristal", que levou milhares de pessoas ao cinema com a possibilidade de ingresso mediante a doação de um quilo de alimento.

Uma geração formada diante da tela grande

Para muitos uberlandenses, o Bristol representa uma espécie de álbum de memórias.

Foi ali que muita gente teve alguns dos primeiros contatos com grandes produções do cinema nacional e internacional. Foi ali que adolescentes marcaram encontros, grupos de amigos descobriram novos filmes e famílias transformaram a ida ao cinema em programa de fim de semana.

A experiência era coletiva.

Antes da televisão ocupar definitivamente um espaço central dentro das casas e muito antes do streaming colocar milhares de filmes à disposição em qualquer celular, assistir a uma produção cinematográfica significava sair de casa e ocupar um espaço público.

O filme começava quando as luzes diminuíam. Durante algumas horas, centenas de pessoas respiravam juntas, riam das mesmas cenas, se emocionavam com as mesmas histórias e saíam comentando o que tinham acabado de assistir.

É justamente essa dimensão coletiva que ajuda a explicar por que o Bristol permanece tão presente na memória de antigos frequentadores.

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O fim de uma era

O encerramento do Cine Bristol, em 1999, representou uma mudança importante no cenário cultural de Uberlândia.

O cinema enfrentava custos elevados de operação, concorrência crescente e redução do público. Segundo informações registradas em pesquisa acadêmica baseada na imprensa da época, apenas cerca de 40% dos lugares vinham sendo ocupados, enquanto as distribuidoras ficavam com uma parcela significativa da receita dos ingressos.

A mudança também fazia parte de uma transformação maior no hábito de lazer dos brasileiros.

Com a expansão dos shopping centers, as salas localizadas nas regiões centrais passaram a enfrentar uma nova concorrência. Em Uberlândia, o Center Shopping gradualmente ganhou preferência do público, contribuindo para o fechamento de salas tradicionais do centro, entre elas o Bristol, em 1999.

O fechamento não significou apenas o fim de uma empresa ou de uma sala de cinema. Para muitos moradores, significou o desaparecimento de um espaço de convivência que fazia parte da própria paisagem urbana.

O Bristol que permanece

Hoje, o Cine Bristol não existe mais como sala de exibição. O espaço que um dia recebeu multidões, cartazes de grandes filmes, filas e encontros deixou de exercer aquela função.

Mas a memória permaneceu.

O Bristol pertence a uma época em que o cinema tinha endereço, fachada, bilheteria e uma grande porta de entrada. Uma época em que o programa começava muito antes da sessão e terminava muito depois dos créditos finais.

Mais do que um cinema, ele foi um cenário da vida de Uberlândia.

Foi moderno quando a modernidade chegava às salas de exibição. Foi elegante sem precisar ser monumental. Foi ponto de encontro, espaço de cultura, palco de campanhas sociais e, principalmente, parte da juventude de uma geração de cinéfilos.

Talvez seja por isso que, tantos anos depois de seu fechamento, falar do Cine Bristol ainda desperte lembranças tão fortes.

Porque alguns lugares desaparecem fisicamente, mas continuam existindo na memória.

E o Cine Bristol é um desses lugares.

FONTE/CRÉDITOS: Redação Cidade

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