A viagem que começou em São Vicente, no litoral de São Paulo, com apenas R$ 48 na conta bancária e uma bicicleta, ganhou novos capítulos e também novos desafios. Aos 30 anos, Georgios Aciro Sarmento Beinis segue pedalando pela Argentina com um objetivo definido: chegar a Ushuaia, cidade localizada no extremo sul do país e conhecida como o “fim do mundo”.
O desafio, que começou em 3 de abril de 2026, no bairro Jardim Rio Branco, nasceu de um desejo que Georgios alimentava havia cerca de um ano. Ele acompanhava relatos de pessoas que percorriam a América do Sul de bicicleta e passou a pesquisar sobre esse estilo de viagem. A ideia de conhecer novos países, culturas e paisagens utilizando apenas a força das próprias pernas acabou se transformando em um projeto de vida.
Da construção civil para a estrada
Antes de colocar a bicicleta na estrada, Georgios trabalhava como ajudante de pedreiro. Durante aproximadamente um ano, pesquisou e se preparou para a aventura, que teria como destino final Ushuaia.
A escolha pela bicicleta também teve um motivo econômico. Sem recursos para bancar hospedagens, transporte e alimentação durante uma viagem tão longa, ele decidiu apostar no cicloturismo, dormindo em barraca e utilizando a ajuda de pessoas que acompanha pelas redes sociais.
Sua alimentação durante boa parte do percurso é simples, baseada principalmente em alimentos enlatados. Para economizar, Georgios evita hotéis e campings e procura locais onde possa montar sua barraca. Em alguns momentos, a ajuda de seguidores foi fundamental para a compra de alimentos, peças e equipamentos.
Uma história de vida marcada por mudanças
A própria trajetória pessoal de Georgios ajuda a explicar sua disposição para enfrentar grandes mudanças. Ele nasceu na Grécia, filho de pai grego e mãe brasileira. Os pais se conheceram no país europeu, mas o pai morreu quando Georgios tinha apenas três anos. Depois disso, a família retornou ao Brasil.
Hoje, ele vive em São Vicente e mantém como principal vínculo familiar próximo o irmão, que também mora no Jardim Rio Branco, bairro de onde partiu para a aventura.
Mais de 5 mil quilômetros pela frente
A viagem tem sido marcada por dificuldades. A bicicleta, apelidada de “Azulzinha”, já apresentou problemas nas marchas, freios, pneus, rodas e bagageiro. Em determinado trecho, Georgios chegou a precisar empurrar a bicicleta por cerca de 100 quilômetros durante a passagem pelas Altas Cumbres, na Argentina, a aproximadamente 2.850 metros de altitude. Em outro dia, percorreu cerca de 140 quilômetros em dez horas para chegar a San Luis.
O frio também se transformou em um dos principais adversários. O ciclista relatou ter enfrentado temperaturas negativas e chegou a utilizar quatro calças, três blusas, várias meias e cachecol para tentar se proteger. Posteriormente, conseguiu adquirir roupas térmicas para enfrentar melhor o inverno argentino.
Agora, o problema é a conta bancária
Quando a viagem já se aproximava de uma nova etapa, surgiu um problema inesperado. Segundo relato feito por Georgios ao jornal A Tribuna, sua conta bancária foi bloqueada no dia 15 de agosto, sem que ele recebesse, até então, uma explicação para a medida.
Era justamente nessa conta que ele havia colocado dinheiro suficiente para aproximadamente dois meses de viagem. Também eram recebidos ali valores enviados por seguidores por meio de Pix e recursos obtidos com rifas realizadas para ajudar a financiar a aventura.
Sem conseguir movimentar o dinheiro, Georgios passou a utilizar outra conta para fazer a conversão dos valores para pesos argentinos. Até a publicação da reportagem, o problema ainda não havia sido solucionado pela instituição financeira. O viajante levantou a possibilidade de que o bloqueio pudesse estar relacionado a alguma denúncia ou estorno, mas não há confirmação sobre a causa do bloqueio.
O sonho continua
Apesar dos problemas financeiros, das temperaturas próximas de zero, dos defeitos na bicicleta e das longas distâncias, Georgios afirma que não pretende abandonar a viagem.
Em 27 de agosto, ele estava em Pareditas, na província de Mendoza, e estimava ainda ter aproximadamente 3,1 mil quilômetros até Ushuaia. Se as condições climáticas permitirem, acredita que poderá completar o trecho em cerca de 30 dias.
Mais do que uma viagem turística, a aventura de Georgios se transformou em uma experiência de superação. Ele conta que a estrada modificou sua maneira de enxergar coisas que antes pareciam banais, como tomar um banho quente, encontrar uma tomada para carregar os equipamentos ou simplesmente receber ajuda de um desconhecido.
“A felicidade está nas pequenas conquistas, não apenas no destino”, resumiu o ciclista em relato publicado por A Tribuna.
Da pequena bicicleta que deixou São Vicente ao desafio de alcançar o extremo sul da Argentina, Georgios segue escrevendo sua própria história quilômetro após quilômetro. E, mesmo diante dos obstáculos, mantém o objetivo de chegar ao chamado “fim do mundo” movido por uma combinação de fé, coragem, simplicidade e vontade de provar que grandes sonhos também podem começar com muito pouco.

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