Um quadro roubado pelos nazistas da coleção de um negociante de arte judeu foi descoberto na Holanda, na casa de uma descendente de um notório colaborador nazista.
A obra Retrato de uma Jovem, do pintor holandês Toon Kelder (1892 - 1973), ficou pendurada por décadas no corredor da residência da neta de Hendrik Seyffardt, afirmou nesta segunda‑feira (11/05) à agência de notícias AFP o detetive Arthur Brand, conhecido como o "Indiana Jones do mundo da arte".
A obra originalmente fazia parte da coleção do judeu Jacques Goudstikker, que teve itens saqueados ou vendidos sob pressão para os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.
O nazista Seyffardt foi um dos colaboradores de mais alto escalão na Holanda ocupada e comandante de uma unidade voluntária holandesa da Waffen‑SS que atuou na Frente Oriental durante a Segunda Guerra.
Quando Seyffardt foi morto por membros da resistência em 1943, os nazistas lhe concederam um funeral de Estado em Haia, incluindo uma coroa de flores enviada pessoalmente por Adolf Hitler.
A Waffen-SS era o braço militar da SS nazista, organização que teve papel central no Holocausto; Durante o conflito, a Waffen-SS organizou em vários territórios ocupados várias “legiões estrangeiras” de voluntários dispostos a lutar ao lado dos nazistas.
Caso "bizarro"
Após a fuga de Goudstikker para o Reino Unido, em 1940, Hermann Göring – o número 2 da Alemanha nazista – saqueou toda a coleção do marchand judeu. Brand suspeita que Seyffardt tenha adquirido o quadro em um leilão realizado naquele mesmo ano.
O detetive descreveu o caso agora revelado como "o mais bizarro de toda a minha carreira".
Brand afirma que foi procurado por outro descendente de Seyffardt, que deseja permanecer anônimo. Esse teria descoberto apenas recentemente ser aparentado com o colaborador nazista – e que o quadro pendurado há anos na casa da neta de Seyffardt pertencia originalmente a um judeu. "Ele foi roubado de Goudstikker, é impossível vendê‑lo, não conte a ninguém", teria dito a neta ao parente, segundo Brand.
O homem, porém, declarou ao jornal holandês De Telegraaf: "Fiquei atônito e sem palavras. É por isso que estou tornando isso público agora. Sinto profunda vergonha pelo passado da família e estou furioso com os anos de silêncio. O quadro deve retornar aos legítimos herdeiros judeus".Já a neta de Seyffardt afirmou ao jornal não saber que se tratava de arte roubada. "Eu recebi o quadro da minha mãe", afirmou. Agora, segundo ela, compreende que os herdeiros de Goudstikker queiram a obra de volta.
A família estaria discutindo a devolução. De acordo com o detetive Brand, os herdeiros já exigiram oficialmente a restituição do quadro.
Brand rastreou a peça até um leilão de obras saqueadas de 1940, identificando-a por meio de uma etiqueta e um número de catálogo.
"Já encontrei antes obras de arte roubadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, inclusive peças no Louvre, na coleção real holandesa e em muitos museus", disse Brand. "Mas encontrar um quadro da famosa coleção Goudstikker em posse de descendentes de um notório general holandês da Waffen‑SS realmente supera tudo."
A história da pintura
A obra de Kelder fazia parte da coleção de arte de Goudstikker. Antes da Segunda Guerra Mundial, ele possuía mais de 1.200 obras de arte e era o principal negociante de mestres antigos da Holanda.
Toda a sua coleção foi saqueada durante a guerra e permanece até hoje a maior reivindicação em volume de uma coleção de obras de arte saqueadas pelos nazistas.
Retrato de uma Jovem passou para a posse de Seyffardt, que foi baleado em sua casa em Haia pela resistência em fevereiro de 1943 e morreu alguns dias depois.
O quadro provavelmente foi herdado por seu filho, que dirigia uma empresa de marketing que veiculava propaganda antissemita e promovia a legião de voluntários de seu pai e a Juventude Hitlerista.
As autoridades têm opções limitadas, uma vez que os prazos legais expiraram e os órgãos de restituição não podem obrigar os proprietários privados a devolver tais obras.
No ano passado, autoridades argentinas recuperaram uma pintura italiana do século 18 que também tinha origem na coleção de Goudstikker. Assim como no caso na Holanda, a pintura estava em posse de descendentes de um antigo oficial da Alemanha nazista, que após a Segunda Guerra também manteve negócios no Brasil.

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