Uma operação integrada das Polícias Civis do Rio de Janeiro e de São Paulo desarticulou uma organização criminosa especializada no roubo e na revenda de medicamentos de alto custo utilizados no tratamento do câncer. Batizada de Operação Metástase, Stefano Mantovani foi preso nesta terça-feira, em Santo André, no ABC Paulista, e comandava um esquema que roubava cargas no Rio, escondia os medicamentos em áreas dominadas pelo Terceiro Comando Puro (TCP), no Complexo da Maré, e os redistribuía para outros estados, onde eram revendidos a hospitais privados e, em alguns casos, a instituições públicas de saúde por meio de licitações. Até uma unidade infantil chegou a receber os produtos, segundo o delegado Luiz Eduardo Moura, da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas do Rio.
De acordo com as investigações, a quadrilha atuava de forma organizada. O grupo monitorava a chegada e o transporte de medicamentos de alto valor, promovia furtos e roubos das cargas e, posteriormente, encaminhava os produtos para empresas e intermediários responsáveis por recolocar os remédios no mercado clandestino. Em muitos casos, os medicamentos voltavam a ser comercializados para clínicas e pacientes sem qualquer garantia sobre a procedência, o armazenamento ou a conservação dos produtos, colocando em risco a saúde dos consumidores.
As apurações apontam que apenas um dos ataques investigados provocou um prejuízo estimado em R$ 1 milhão em medicamentos oncológicos. A Polícia Civil acredita que o prejuízo aos cofres públicos foi mais de R$ 40 milhões, considerando a repetição das ações criminosas e a existência de uma rede estruturada para receptação e comercialização dos remédios.
Durante a operação, a Justiça expediu mandados de prisão temporária contra integrantes da organização, além de mandados de busca e apreensão em diversos endereços ligados aos investigados. Pelo menos um suspeito foi preso durante o cumprimento das ordens judiciais, enquanto outros alvos passaram a ser considerados foragidos. As diligências também buscaram reunir provas sobre a participação da empresa investigada em Santo André na revenda dos medicamentos roubados.
A investigação foi conduzida pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF) da Polícia Civil do Rio de Janeiro, com apoio de unidades especializadas do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e de outros setores da corporação. A ação contou ainda com a colaboração da Polícia Civil de São Paulo, que atuou no cumprimento de mandados e na identificação dos responsáveis pela receptação e distribuição dos medicamentos no estado paulista, evidenciando a integração entre as duas forças policiais no combate ao crime organizado interestadual.
Segundo os investigadores, o esquema criminoso explorava justamente o alto valor dos medicamentos oncológicos, alguns com custo de dezenas de milhares de reais por unidade. Além do prejuízo financeiro às instituições de saúde, os crimes comprometiam o tratamento de pacientes que dependem desses medicamentos para combater o câncer, tornando o impacto social da organização ainda mais grave.
A Polícia Civil informou que as investigações continuam para identificar outros integrantes da quadrilha, localizar empresas envolvidas na receptação dos medicamentos e rastrear todo o caminho percorrido pelos produtos roubados até chegarem ao mercado ilegal. A expectativa é que novas fases da Operação Escudo Oncológico sejam realizadas para desarticular completamente a rede criminosa.
De acordo com a investigação, os medicamentos não permaneciam no Rio. Após serem ocultados na Maré, eram enviados para diferentes estados por meio de empresas de fachada, transportadoras, entregadores e “laranjas”. A Polícia Civil afirma que os produtos abasteciam hospitais privados e, em alguns casos, instituições públicas de saúde por meio de processos licitatórios.
Os investigadores não divulgaram quais estados ou unidades de saúde receberam os medicamentos para não comprometer as investigações.
Para a Polícia Civil, o esquema representava um grave risco à saúde pública. Medicamentos oncológicos e imunossupressores exigem controle rigoroso de temperatura durante todo o transporte. Quando armazenados de forma inadequada, podem perder a eficácia, sofrer contaminação ou até gerar substâncias nocivas, comprometendo o tratamento de pacientes com câncer, transplantados e pessoas com doenças autoimunes.

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