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Sexta-feira, 28 de Agosto 2026
Mundo

Pesquisadores criam "exército" de polvos contra caranguejos

Na Itália, o caranguejo-azul, originário do Atlântico, vem causando prejuízos milionários. Cientistas agora tentam reduzir população do crustáceo, que virou uma praga

Cidade a Cidade
Por Cidade a Cidade
Pesquisadores criam
O polvo-comum é criado por pesquisadores e solto no Adriático como possível predador natural do caranguejo-azul/Foto: Franco Banfi/Avalon.red/IMAGO
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No Mar Adriático, cientistas na Itália estão soltando milhares de filhotes de polvo a partir de um barco pesqueiro na tentativa de conter uma espécie invasora de caranguejo que vem causando grandes prejuízos à pesca local.

Uma equipe da Universidade de Bolonha aposta que o polvo-comum pode ajudar a conter o avanço da população de caranguejos-azuis, um crustáceo voraz que tem devastado a produção de mariscos no Adriático.

"Escolhemos o polvo porque, em seu habitat natural, ele é um predador extremamente eficiente de crustáceos", afirmou à AFP Antonio Casalini, um dos pesquisadores.

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Originário da costa do Atlântico na América do Norte, o caranguejo-azul chegou ao Mediterrâneo há décadas, provavelmente transportado pela água de lastro dos navios, que é captada para garantir a estabilidade das embarcações.

No entanto, a população do crustáceo aumentou drasticamente nos últimos anos, e tanto o governo quanto as associações de pescadores atribuem essa explosão populacional ao aquecimento das águas e às mudanças climáticas.

Prejuízo de milhões de euros

Com pinças afiadas e de tom azulado, especialmente eficazes para abrir conchas, os caranguejos-azuis têm causado grandes estragos no nordeste da Itália, uma das principais regiões produtoras de moluscos da Europa.

No ano passado, as autoridades da Emilia-Romagna, região cuja capital é Bolonha, informaram que a espécie havia causado prejuízos de quase 17 milhões de euros (R$ 102 milhões) desde 2022.

A Coldiretti, principal organização agrícola e pesqueira da Itália, estima que as perdas cheguem a cerca de 200 milhões de euros (R$ 1,2 bilhão) em todo o país. A região do Vêneto, no norte italiano, também foi severamente afetada.

"Ele come de tudo, inclusive as jovens amêijoas que vivem no fundo do mar", explica Davide Sanulli, pescador e produtor de mexilhões de 64 anos. Nas áreas de lagoas próximas ao delta do rio Pó, o caranguejo-azul provocou uma "verdadeira devastação", acrescentou Sanulli, que colabora com o projeto da Universidade de Bolonha.

Excelentes nadadores e capazes de atingir até um quilo, esses caranguejos têm poucos predadores naturais. É essa realidade que os pesquisadores querem mudar.

caranguejos-azuis em um supermercadocaranguejos-azuis em um supermercado
O caranguejo-azul vem causando estragos na produção de amêijoas no nordeste da ItáliaFoto: Creative Touch Imaging Ltd./NurPhoto/picture alliance

Polvos devoradores de caranguejos

Lançado em 2024 e financiado pelo governo da região de Emilia-Romanha, o projeto Octo-Blu busca aumentar a população de polvos para conter o avanço desses invasores de carapaça dura.

A equipe cria polvos recém-nascidos em tanques de água instalados em um laboratório na cidade portuária de Cesenatico.

Quando estão prontos, os pequenos invertebrados são recolhidos aos milhares em grandes sacos plásticos e levados para o mar, às vezes a bordo do robusto barco pesqueiro azul de Davide Sanulli.

Em seguida, os filhotes são soltos próximos a recifes submarinos, onde o grupo instalou abrigos artificiais de cimento e argila para aumentar as chances de sobrevivência dos polvos.

Desde junho, dezenas de milhares de exemplares já foram liberados. A AFP informou inicialmente que cerca de 80 mil polvos haviam sido soltos, enquanto a revista Scientific American elevou posteriormente essa estimativa para aproximadamente 130 mil.

A equipe do Octo-Blu espera dobrar esse número até o fim de agosto, na expectativa de que parte dos animais sobreviva até a fase adulta.

"A ideia é formar uma pequena comunidade próxima à costa para que ela possa ajudar a conter com mais eficiência a expansão do caranguejo-azul", afirmou Casalini, técnico em aquicultura.

Pescadora em uma embarcação no marPescadora em uma embarcação no mar
Pescadora de mexilhões na Sacca degli Scardovari (Rovigo), em 2023, região afetada pela invasão do caranguejo-azulFoto: Brancolini/Fotogramma/ROPI/picture alliance

Polvos, robalos e enguias

O projeto tem algumas limitações evidentes. O polvo-comum normalmente não vive nas águas quentes e arenosas típicas das áreas lagunares onde o caranguejo-azul tem causado os maiores estragos. Por isso, seu impacto nessas regiões provavelmente seria limitado, algo de que os próprios pesquisadores estão cientes.

Outros especialistas sugerem que o robalo poderia ser mais eficaz no controle do caranguejo. Enquanto isso, a equipe da Universidade de Bolonha também estuda o uso de enguias, grandes consumidoras de ovos de crustáceos, como complemento à ação dos polvos.

Ainda assim, caso o projeto-piloto seja ampliado, ele poderá ajudar a reduzir a população do caranguejo-azul e os impactos que a espécie vem causando ao ecossistema marinho da costa do Adriático, afirma Casalini.

"Os caranguejos-azuis têm um potencial reprodutivo e uma taxa de fertilidade impressionantes", explica Pietro Emmanuele, também pesquisador da Universidade de Bolonha. Segundo ele, uma única fêmea pode colocar milhões de ovos, e a maior parte deles chega a eclodir em filhotes.

Embora apenas uma fração das crias sobreviva até a idade adulta, a captura de uma única fêmea por um polvo já poderia fazer diferença no controle da população da espécie, destacou o pesquisador.

FONTE/CRÉDITOS: Redação DW

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