Tal como o Brasil, a Ucrânia serve de celeiro agrícola para outras partes do mundo. Grãos, óleo de girassol e outros produtos do setor representam mais da metade das exportações do país, que somaram cerca de 25 bilhões de dólares (R$130 bilhões) no ano passado. É o equivalente a 15% das exportações do agronegócio brasileiro no mesmo período, mas num país que é mais de dez vezes menor do que o Brasil.
Mas, após mais de quatro anos de guerra, o setor está sob pressão. Para além dos ataques russos à infraestrutura e às cadeias de abastecimento, o déficit da força de trabalho agrícola é estimado em 30%. A escassez é mais acentuada entre os homens de 25 a 60 anos, a faixa etária recrutada para as Forças Armadas.
"Não há pessoas suficientes, os homens se foram. Só sobraram aposentados e mulheres," diz Oksana Suovorova, uma caminhoneira do oeste ucraniano. Ela é uma das poucas mulheres que migraram para o trabalho agrícola até agora. Embora seja época de colheita, só metade das máquinas operam na zona de cultivo de grãos. "Precisamos que mais mulheres venham."

O resultado é uma ameaça aos meios de subsistência das famílias da economia agrícola e à produção de alimentos. Milhões de pessoas, do Norte da África ao Oriente Médio, dependem dos alimentos vindos da Ucrânia - que é, também, o terceiro maior exportador de produtos agrícolas para a União Europeia (UE).
"Em tempos normais, o ritmo aqui é rápido, com uma única viagem até o ponto final de descarga. Mas quando se descarrega em um depósito e, depois, se recarrega só na semana seguinte, é claro que se perde eficiência, os custos aumentam e o custo de produção sobe," diz Oleksandr Ryzhenkov, que toca o negócio onde trabalha Oksana.
Perdas e danos bilionários
Antes da invasão em larga escala pela Rússia, o êxodo rural na Ucrânia já preocupava analistas do setor, que assistiam sobretudo aos jovens trocarem vilarejos agrícolas pela vida urbana. De 2010 a 2020, a população rural decresceu em 11,6%, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM) , enquanto a urbana aumentou em 7,6%.
Ao mesmo tempo, a agricultura era um dos setores que crescia mais rapidamente, responsável por gerar quase 11% do Produto Interno Bruto (PIB) e empregar 2,5 milhões de pessoas, o equivalente a 14% de todos os empregos a nível doméstico, segundo relatório do serviço de pesquisa do Parlamento Europeu.

Por ora, a queda nas receitas de exportação foi, entre 2021 e 2025, de um pouco menos de US$3 bilhões de dólares. Mas, até dezembro de 2024, as perdas e danos sofridas pelo setor ao longo de quase três anos de guerra chegavam a estimados 84 bilhões de dólares (R$435 bilhões).
O valor só foi maior nos setores de comércio e indústria e de energia e extração, diz a Quarta Avaliação Rápida de Danos e Necessidades (RDNA4), o mais recente relatório anual sobre o estado da economia ucraniana, coassinado por Banco Mundial, Comissão Europeia, Nações Unidas e o governo da Ucrânia.
O governo russo mirava o setor agrícola ucraniano já em 2013, quando impôs um embargo. O movimento foi amplamente lido como chantagem política, a fim de impedir Kiev de aceitar uma proposta da UE para reforçar laços, incluindo com um pacto de livre comércio.
Vulnerabilidade na linha de frente
Na linha de frente da guerra, estão as famílias mais vulneráveis da economia agrícola, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A lista de desafios à manutenção da sua subsistência inclui ainda a presença de minas terrestres, contaminação do solo, falta de insumos, bombardeios e frequentes cortes de energia elétrica.
Organizações de ajuda humanitária que trabalham na região vêm relatando o aumento da insegurança alimentar. Famílias que antes viviam da agricultura em pequena escala são, então, forçadas a produzir apenas para a própria subsistência.
Ataques russos aos sistemas de irrigação engrossam o desafio da reconstrução, em meio a uma ofensiva mais ampla à infraestrutura essencial para o funcionamento da economia e da vida ucranianas. Parte do sistema foi destruída, enquanto outras sofreram com combates, vandalismo e inundações provocadas como estratégia de defesa. O impacto se faz sentir tanto nas produções de cereais, cerne, tomates, arroz e batatas.
De acordo com dados oficiais, mais de 130 mil quilômetros quadrados de território na Ucrânia foram afetados pela guerra e, portanto, estão potencialmente contaminados por minas e outros restos explosivos. Aproximadamente 42 mil já foram recuperados e devolvidos para uso.
Inovação e reconstrução
Para alguns empreendimentos, a solução tem sido testar novas tecnologias para suprir parte das lacunas deixadas pela falta de mão de obra. No oeste ucraniano, o agricultor Mykola Melnyk tem investido em estufas modernas para a produção de tomates e outros vegetais
"Tudo aqui é automatizado. Temos aquecimento de piso em toda parte — aqui e em todas as estufas", afirma. "Neste momento, vejo isso mais como uma plataforma onde posso testar diversos sistemas robóticos, desenvolvê-los, melhorar minha própria operação e, eventualmente, beneficiar outros agricultores também."
A inteligência artificial (IA) gerencia muitos dos processos diários, incluindo a irrigação e a ventilação. O sistema foi projetado para oferecer condições ideais de cultivo usando o mínimo possível de energia e água, aumentando a eficiência.
Mas o caminho da reconstrução agrícola será bem mais longo e tortuoso. Será necessário um total calculado em 55 bilhões de dólares (R$285 bilhões), prevê a RDNA4.
"As famílias rurais vulneráveis precisam de apoio não apenas para sobreviver, mas para prosperar e se reerguer", afirmou Rein Paulsen, diretor de Emergências e Resiliência da FAO, durante uma visita do ano passado à Ucrânia.

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