A lipoaspiração, segunda cirurgia mais realizada no mundo segundo o levantamento anual da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), não termina quando a gordura é removida. A pele precisa se adaptar ao novo volume corporal, “encolhendo” para acompanhar o novo contorno.
Mas essa retração da pele no pós-operatório não acontece sozinha, ela depende de estímulos ao colágeno e às estruturas do tecido subcutâneo. O resultado que o paciente vai ver, portanto, depende também desse processo, que entregou avanços significativos para a cirurgia plástica nas últimas décadas.
O Brasil lidera o ranking mundial em operações estéticas, realizando mais de 2,3 milhões de operações anuais. Ao somar os procedimentos não invasivos, o volume total no país ultrapassou 3,1 milhões de intervenções em 2024 — parte de um mercado global em franca expansão que, só na categoria de lipoaspiração, cresceu 36,8% nos quatro anos que antecederam a pesquisa da ISAPS.
Tanta expansão trouxe consigo a pressão por métodos mais previsíveis em todas as etapas. Na retração de pele, acelerou a transição de métodos rápidos, com alto potencial de dano térmico, para soluções integradas que monitoram a temperatura em tempo real.
“Essas tecnologias passaram por mudanças importantes, principalmente no que diz respeito à segurança, controle térmico e eficiência”, afirma a Dra. Ana Cecília Granda, cirurgiã plástica especializada em contorno corporal da Clínica Le Blanc, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
A era do plasma e seus riscos
As primeiras tecnologias de retração de pele chegaram com o apelo da velocidade, como o Renuvion, procedimento que utiliza jato de plasma de hélio em altas temperaturas para provocar a contração imediata do tecido. “Apesar da eficácia, apresentava riscos relevantes relacionados ao uso de gás, como a possibilidade de disseminação para áreas não desejadas, com relatos de complicações graves e queimaduras”, descreve a Dra. Ana Cecília Granda.
Já o argoplasma, baseado em gás argônio (mais denso e menos suscetível à dispersão), tentou contornar os riscos do hélio. Embora reduzisse parcialmente o risco de dispersão, ainda havia incidência de complicações como seromas e queimaduras, segundo a médica. “Em alguns casos, esses seromas evoluíam de forma desfavorável, podendo levar a infecções mais graves”, aponta a médica cirurgiã.
Mais antigo ainda, o endolaser insere fibra óptica no subcutâneo para emitir energia em alta temperatura, com distribuição de calor menos homogênea. “Esse mecanismo se assemelha a uma queimadura interna controlada, o que explica um pós-operatório frequentemente mais doloroso e com maior desconforto”, detalha.
A virada da radiofrequência
O ponto de virada foi a radiofrequência assistida, que promove aquecimento mais uniforme e controlado, tornando o procedimento mais previsível e menos agressivo. “Sua introdução representou um marco importante na retração de pele, trazendo ganho significativo em segurança, principalmente por permitir melhor controle térmico e reduzir o risco de queimaduras, sofrimento cutâneo e incidência de seroma”, avalia a Dra. Ana Cecília Granda.
O BodyTite, por exemplo, transmite radiofrequência bipolar entre um eletrodo interno, sob a pele, e um externo, por cima da pele, com controle contínuo de temperatura. A limitação, no entanto, é o tempo: a aplicação meticulosa alonga o procedimento. Já o Ignite, da geração seguinte, combina a rapidez de aplicação, semelhante às tecnologias a gás, com a segurança da radiofrequência, eliminando os riscos associados à dispersão gasosa. Por último, o Morpheus Blue passou a permitir ajuste de potência em camadas distintas da pele.
“O princípio mais atual não é ‘entregar mais energia’, mas sim entregar a energia certa, no plano correto e de forma uniforme. Um estímulo excessivo pode até gerar contração imediata, mas à custa de maior dano inflamatório, pior qualidade de cicatrização e mais complicações tardias. Por outro lado, um estímulo mais calibrado, com menor temperatura e potência, porém bem distribuído e repetível, tende a produzir uma resposta biológica mais eficiente e segura, com melhor qualidade de colágeno no longo prazo”, explica a cirurgiã.
Controle como critério clínico
Para quem busca o procedimento, a escolha deve passar pela transparência clínica, não pelo portfólio tecnológico, orienta a Dra. Ana Cecília Granda. “Mais importante do que a tecnologia em si é quem está por trás dela e como ela é utilizada. Hoje, existe uma tendência de associar ‘tecnologia mais potente’ a ‘resultado melhor’, mas isso não é verdade. O melhor resultado vem de um médico que tenha critério, experiência e, principalmente, sensatez para indicar o que é necessário e não o que é possível fazer”, conclui.
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