O governo americano revogou, nesta terça-feira (04/08), o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A medida de Washington ocorre em retaliação à demora do governo brasileiro em aprovar o indicado pelo presidente Donald Trump para o cargo de embaixador em Brasília, Daniel Perez.
De acordo com o Departamento de Estado, a decisão foi uma resposta "recíproca" às ações do Brasil. Autoridades americanas sinalizaram que a indicação de Perez havia sido adiada várias vezes para dar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) margem para recuar, o que não ocorreu.
De acordo com fontes citadas pela Associated Press, no entanto, a decisão pode ainda ser revertida caso o Brasil aceite a indicação de Perez. "Reciprocidade é a regra do jogo", disse um oficial do Departamento de Estado, citado pela agência de notícias. O Itamaraty não se pronunciou.
A revogação do visto não significa a expulsão de Viotti dos Estados Unidos, afirmou a fonte sob condição de anonimato. Ela poderá ser autorizada a retomar as funções oficiais caso o governo brasileiro aceite a escolha de Trump para a embaixada em Brasília. A autoridade acrescentou que, ao que tudo indica, o Brasil não fará isso antes das eleições de outubro.
Perez é presidente da Câmara dos Deputados na Flórida e membro do Partido Republicano, o mesmo de Trump. A indicação dele precisa ser confirmada pelo Senado americano, o que não ocorreu ainda.
O nome do novo embaixador foi divulgado em junho pela Casa Branca, um mês antes de o governo americano solicitar ao Brasil a autorização para nomeá-lo, o que gerou um incômodo diplomático. Tradicionalmente, a indicação oficial costuma ocorrer após uma consulta junto às autoridades locais sobre a viabilidade do novo nome.
Os Estados Unidos estão com o posto de embaixador no Brasil vago desde o início do segundo mandato de Trump, em janeiro de 2025. Até então, a representação americana em Brasília era comandada por Elizabeth Bagley, que foi indicada pelo ex-presidente Joe Biden. Atualmente, a representação diplomática americana em Brasília é comandada pela encarregada de negócios Natasha Franceschi.
Viotti é embaixadora do Brasil nos Estados Unidos desde 2023, quando se tornou a primeira mulher a assumir o cargo. Natural de Belo Horizonte, ela foi chefe de gabinete do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, entre 2017 e 2021. Viotti, que ingressou no Itamaraty em 1976, também foi embaixadora do Brasil na Alemanha entre 2013 e 2016.

Tensão diplomática entre Brasil e EUA
A revogação do visto de Viotti é o mais recente capítulo da tensão diplomática entre Trump e Lula. Mês passado, o Brasil negou vistos a Riley Barnes, secretário de Estado adjunto para a democracia, direitos humanos e trabalho, e a um de seus principais assessores, após notícias de que os dois tinham o objetivo de criticar Lula ou o processo eleitoral brasileiro.
O Departamento de Estado negou as acusações e afirmou que os dois haviam planejado viajar a Brasília entre 27 e 30 de julho para se reunir com autoridades políticas, líderes religiosos e outros representantes a fim de discutir a "integridade eleitoral", a liberdade religiosa e a liberdade de expressão.
O órgão do governo americano acrescentou que a visita seria "de rotina" e que "qualquer insinuação de que se trataria de uma 'manobra' para minar as eleições de uma nação democrática é uma mentira infundada".
No fim de maio, o governo Trump classificou as duas maiores organizações criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas, medida à qual Lula se opõe.
O governo do petista afirma que a medida pode ser utilizada para intervenções americanas em solo brasileiro, como o ocorreu na Venezuela, em janeiro, durante a captura do então presidente Nicolás Maduro.
Recentemente, o governo Trump também impôs uma sobretaxa de até 37,5% sobre milhares de produtos brasileiros exportados para os EUA, medida que entrou em vigor na sexta-feira (31/07). O governo americano alega que o Brasil pratica concorrência desleal e não coíbe práticas de trabalho forçado, ambas acusações rejeitadas pelo governo Lula e vistas como uma tentativa de influenciar a eleição a favor de Flávio Bolsonaro,adversário de Lula nas eleições de outubro.

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