A promessa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de enviar mais 5 mil soldados americanos à Polônia surpreendeu aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar do Ocidente.
Em uma postagem na sua rede social, a Truth Social, Trump anunciou nesta quinta-feira (21/05) a decisão de enviar tropas adicionais à Polônia e justificou a medida citando sua relação com o presidente conservador nacionalista Karol Nawrocki.
"Baseado na bem-sucedida eleição do agora presidente da Polônia, Karol Nawrocki, a quem eu tive orgulho de apoiar, e nossa relação com ele, tenho o prazer de anunciar que os Estados Unidos enviarão um adicional de 5 mil tropas à Polônia", escreveu Trump.
O anúncio parece ser um recuo de uma decisão comunicada abruptamente no início de maio para retirar igual contingente de soldados americanos da Alemanha, após o chefe da Casa Branca se irritar com críticas do chanceler federal alemão, Friedrich Merz, sobre a guerra de EUA e Israel no Irã.
O conflito expôs divisões internas na aliança, e levou Trump a especular sobre a saída dos EUA – maior potência militar do planeta – da Otan e a questionar o compromisso de seu país com o pacto de defesa mútua. Isso alarmou líderes europeus que temem ser o próximo alvo de uma ofensiva russa, depois da Ucrânia.
O anúncio foi feito horas antes de o chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, reunir-se com ministros do Exterior da aliança na Suécia, nesta sexta-feira. Segundo ele, Trump estava "muito decepcionado" com a relutância de membros da Otan em ceder suas bases militares para apoiar a ofensiva americana no Irã.
"Você tem países como a Espanha negando aos Estados Unidos o uso dessas bases. Então por que vocês estão na Otan? Essa é uma pergunta muito justa", disse Rubio a repórteres em Miami antes de embarcar para a Suécia. "Para ser justo, outros países da Otan foram muito prestativos. Mas precisamos discutir isso."
Autoridades da Otan ressaltaram que os Estados Unidos não pediram à aliança, que tem 32 membros, que participasse da guerra no Irã, mas muitos países honraram compromissos de permitir que forças americanas usem seu espaço aéreo e bases em seus territórios.
Alguns aliados também enviaram navios para mais perto da região, para ajudar com a retomada do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz quando a guerra terminar. A rota, que é crucial para o escoamento do petróleo produzido no Golfo, foi estrangulada pelo conflito, com repercussões sobre a economia global.
Anúncio gera confusão na Otan
A promessa de enviar 5 mil soldados à Polônia foi bem recebida pelo chefe da Otan, Mark Rutte, e pela Polônia. "Acolho com satisfação o anúncio. Mas sejamos claros: a trajetória que seguimos é a de uma Europa mais forte e uma Otan mais forte, garantindo que, com o tempo, passo a passo, dependamos menos de um único aliado, como fizemos por tanto tempo, que são os Estados Unidos", declarou.
A decisão foi uma reviravolta após Trump queixar-se, por semanas, sobre a Otan. No encontro na Suécia nesta sexta, europeus tentaram obter esclarecimentos de Rubio sobre as movimentações de tropas feitas por Washington. Não ficou imediatamente claro de onde viriam os soldados adicionais para a Polônia.
"Quero agradecer ao presidente Trump pelo seu anúncio de que a rotação, a presença de tropas americanas na Polônia, será mantida mais ou menos no mesmo nível", afirmou o ministro polonês do Exterior, Radoslaw Sikorski.
Já o ministro polonês da Defesa, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, disse esperar mais tropas para o seu país ou até mesmo uma presença permanente americana. "Uma coisa é certa, a Polônia certamente não vai perder o que tinha: cerca de 10 mil soldados", declarou.

Aliados de Washington também ficaram confusos e inquietos com a forma como a decisão foi comunicada. Autoridades americanas disseram inicialmente que as tropas seriam retiradas da Alemanha, mas depois afirmaram que iriam adiar o envio de uma brigada de 4 mil homens para a Polônia.
"É realmente confuso e nem sempre é fácil de entender", disse a ministra das Relações Exteriores da Suécia, Maria Malmer Stenergard.
Atualmente, existem cerca de 80 mil soldados americanos estacionados na Europa. O Pentágono é obrigado a manter pelo menos 76 mil soldados e equipamentos militares de grande porte estacionados na Europa, a menos que os aliados da Otan sejam consultados e que haja uma determinação de que tal retirada atende aos interesses dos Estados Unidos.
Dentro da Otan, já se esperava que os Estados Unidos reduzissem sua presença militar no continente para se concentrar em outras ameaças, à medida que a Europa reforça suas próprias defesas. "O que é importante é que isso aconteça de forma estruturada, para que a Europa consiga se fortalecer quando os Estados Unidos reduzirem sua presença", disse o ministro das Relações Exteriores da Noruega, Espen Barth Eide.
Corrida para agradar Trump
Desde que Trump voltou à Presidência dos EUA, a Otan tem enfrentado uma série de crises, incluindo uma deflagrada pelo interesse do americano em tomar a Groenlândia, território da Dinamarca.
Agora, as consequências da guerra contra o Irã ameaçam ofuscar uma cúpula da aliança programada para julho em Ancara, capital da Turquia. A intenção dos europeus era usar o evento para mostrar a Trump que os aliados estão cumprindo uma promessa feita no ano passado de elevar seus gastos com defesa para 5% do PIB. A preparação de uma série de acordos de compra de armas demonstra isso, afirmam diplomatas.
Por trás da corrida para agradar Trump está o entendimento dos europeus de que terão que bancar a própria segurança, cada vez mais. Esse movimento é liderado pela Alemanha, que tem aumentado significativamente seus gastos militares. Mas, por enquanto, o foco das discussões é reforçar o papel da Europa dentro da Otan, e não criar uma alternativa à aliança.
Uma área em que os europeus já estão agindo de forma mais independente é o apoio à Ucrânia. Rutte está pressionando por mais compromissos para comprar armas dos Estados Unidos e entregá-las a Kiev. Na tentativa de garantir que todos os países façam sua parte, ele propôs um plano para que países europeus e o Canadá se comprometam a destinar 0,25% do PIB para armar a Ucrânia – a ideia foi prontamente rejeitada.
Grandes economias como França, Espanha e Itália têm sido acusadas de contribuir menos do que poderiam. "O que quero alcançar é que o fardo seja distribuído de forma mais equilibrada, que haja mais compartilhamento de responsabilidades aqui", disse Rutte. "No momento, são apenas seis ou sete aliados que estão carregando o peso maior."


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