Em um mundo cada vez mais acelerado e conectado, a ansiedade se tornou uma das condições de saúde mental mais presentes na vida das pessoas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que mais de 18 milhões de brasileiros convivem com o transtorno, enquanto cerca de 4,4% da população mundial é afetada por algum tipo de ansiedade, como ansiedade generalizada, síndrome do pânico e ansiedade social.
Apesar de comuns e altamente tratáveis, especialmente quando diagnosticados precocemente, os transtornos de ansiedade ainda carregam estigmas que dificultam a busca por ajuda especializada.
Segundo o psicólogo e especialista em Neurociências, Paulo Salva, é importante entender que a ansiedade, em si, não é uma inimiga. “A ansiedade é uma emoção natural do nosso organismo, assim como a tristeza ou a raiva. Ela sempre vai existir. O problema não é sentir ansiedade, mas não saber lidar com ela. Muitas pessoas tentam fazer com que ela desapareça, mas esse é um dos maiores equívocos”, explica.
De acordo com o especialista, a ansiedade prepara o corpo para possíveis ameaças. O cérebro interpreta determinadas situações como perigosas e aciona um estado de alerta. No entanto, quando esse mecanismo se torna excessivo, pode gerar sofrimento e limitações. “O que começa como proteção pode acabar virando um bloqueio. A pessoa passa a evitar situações por medo do desconforto, e isso tende a aumentar ainda mais a ansiedade”, afirma.
Um exemplo comum ocorre em situações sociais ou acadêmicas. Uma pessoa pode evitar fazer uma pergunta em sala de aula por medo de julgamento, alimentado por pensamentos automáticos como “vão achar que sou incapaz” ou “minha dúvida é boba”. Muitas vezes, essas reações estão associadas a experiências passadas, como críticas ou situações constrangedoras, que condicionam o cérebro a interpretar determinados contextos como ameaçadores.
Sintomas
Os sintomas da ansiedade podem se manifestar de diferentes formas. No aspecto físico, incluem taquicardia, tensão muscular, dificuldade para respirar, náuseas e tremores. Já no campo emocional, predominam sentimentos de medo, tensão e sobrecarga. No nível cognitivo, destacam-se pensamentos acelerados, preocupação constante e antecipação de cenários negativos. “Os pensamentos acelerados e catastróficos aumentam ainda mais a ansiedade, e vira um ciclo. Há casos que só o tratamento psicológico não resolverá, será necessário intervenção de medicamento com especialista, ressalta Paulo Salva.
O estilo de vida contemporâneo também contribui para o aumento dos quadros de ansiedade. Fatores como privação de sono, alimentação inadequada, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e uso intenso de telas impactam diretamente a saúde mental. A sobrecarga de informações e a comparação constante nas redes sociais ampliam a sensação de inadequação e aumentam os níveis de estresse. “Têm pessoas que dormem com celular ao lado da cama. Ficam horas antes de dormir olhando as redes sociais e isso gera exaustão mental. Isso também influencia em como se sentem ao acordar, podendo gerar desmotivação para iniciar o dia" afirma.
Diante desse cenário, Paulo Elias reforça a importância de cuidar da saúde mental com a mesma atenção dedicada à saúde física. “Alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos e uma boa rotina de sono, com média de 7 a 9 horas por noite, são essenciais para reduzir a ansiedade e estresse", disse.
Tratamentos
Além disso, buscar ajuda profissional é um passo decisivo. A terapia cognitivo-comportamental (TCC), por exemplo, é atualmente uma das abordagens mais eficazes no tratamento da ansiedade. “Na terapia, trabalhamos para que a pessoa entenda seus pensamentos, emoções e comportamentos. O objetivo não é eliminar a ansiedade, mas ensinar a lidar com ela. A gente ajuda o paciente a enfrentar, aos poucos, aquilo que evita”, explica Paulo.
Ele compara o processo a entrar em uma piscina: “Você não precisa pular de uma vez. Pode ir aos poucos, descendo degrau por degrau, até ganhar confiança. Esse enfrentamento gradual ajuda a reduzir a ansiedade e devolve à pessoa a sensação de controle”, comenta Salva.
Técnicas como mindfulness, relaxamento muscular e reestruturação de pensamentos também fazem parte do tratamento, auxiliando no desenvolvimento de uma relação mais saudável com as próprias emoções.
“Falar sobre ansiedade, portanto, é também um convite à conscientização. Quebrar o estigma em torno da saúde mental e reconhecer a importância do cuidado emocional são passos fundamentais para uma sociedade mais saudável. Afinal, aprender a lidar com a ansiedade não é eliminar uma emoção, é desenvolver ferramentas para viver melhor com ela”, conclui o psicólogo.
Paulo Salva é formado em psicologia pela Universidade São Judas Tadeu – São Paulo – SP. Acesse @paulosalvapsi

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