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O prazo de 90 dias em que o Supremo Tribunal Federal suspendeu as multas relacionadas aos fatores de risco psicossocial da NR-1 se encerra por volta de 23 e setembro. A liminar, concedida em 25 de junho e referendada por unanimidade pelo Plenário em 18 de agosto, suspendeu a punição e manteve a obrigação de identificar, avaliar e gerenciar esses riscos. As empresas chegam ao prazo com programas de apoio psicológico estruturados para os níveis operacional e tático, e com um ponto que nenhum deles cobre: o comportamento de quem comanda.
Na clínica, esse comportamento tem uma forma reconhecível. A psicanalista e filósofa Ana Matos, que atende há mais de 20 anos profissionais de alta liderança no Brasil e no exterior, descreve um padrão de queixas que quase nunca chega formulado como saúde mental: dificuldade de colocar limites, de dizer não, de se comunicar e de lidar com demandas emocionais da equipe. O tempo de adiamento até a primeira consulta varia de alguns meses a décadas.
"Ninguém me procura dizendo que está adoecendo. Me procura dizendo que não consegue dizer não, que não consegue colocar um limite, que não sabe o que fazer quando alguém traz uma demanda emocional", explica Ana, que complementa: "Alguns adiam por meses. Outros adiam a vida inteira. E a frase que mais escuto na primeira sessão é que já queria ter procurado antes."
O padrão tem tradução direta na operação. Matos descreve como típico o caso do gestor que não expõe o que o incomoda, acumula, e devolve depois em forma de irritação. A equipe recebe como explosão aquilo que na origem era um desconforto não nomeado, e passa a operar tentando adivinhar o que se espera dela. "O que ele não diz no momento certo, ele diz depois, de forma torta, atravessada, sem filtro emocional. A equipe não recebe o conteúdo. Recebe a explosão", aponta.
É nesse ponto que a discussão encosta na norma. A NR-1 exige gestão contínua dos fatores de risco psicossocial, com plano de ação e indicadores, e a organização do trabalho inclui o modo como a liderança comunica, distribui pressão e trata conflito. Uma política de bem-estar desenhada para a base, sob um comando que não consegue nomear o próprio incômodo, tende a ser classificada como não conforme: existe no documento e não existe na prática.
A psicanalista observa que o efeito do movimento contrário também aparece na equipe. Quando o líder passa a cuidar da própria saúde emocional, o comportamento funciona como referência para quem está abaixo dele. "Líder que se cuida vira exemplo de cuidado. Isso desce pela estrutura do mesmo jeito que a pressão desce", destaca.
Para o executivo que reconhece o padrão, a recomendação é operacional. "Nomeie o incômodo no dia em que ele aparece, com a pessoa certa, antes que ele vire acúmulo. Não é uma questão de temperamento. É uma prática de comunicação, e ela se aprende", afirma.
Setembro concentra a discussão pública sobre sofrimento emocional. Para a psicanalista, o mês só produz efeito quando alcança quem tem poder de mudar a organização do trabalho. "Palestra em setembro não é prevenção. Prevenção é mudar como se distribui pressão o ano inteiro, e isso não se delega", opina.
O silêncio masculino
A alta liderança brasileira é majoritariamente masculina, e o padrão de não pedir ajuda tem expressão nos dados de saúde pública. O Boletim Epidemiológico nº 55 do Ministério da Saúde registrou 15.507 mortes por suicídio no país em 2021, sendo 77,8% delas de homens.
A campanha do Setembro Amarelo de 2026, conduzida pelo Centro de Valorização da Vida, tem como tema "Escutar é estar presente" e defende a escuta acolhedora, sem pressa e sem julgamentos, como primeiro passo para quem enfrenta sofrimento emocional. Em 2025, o CVV registrou 2 milhões de atendimentos, média de 5,5 mil conversas por dia, com 3,2 mil voluntários. "Escutar não é gentileza que o líder oferece quando sobra tempo. É competência de gestão, e é a que menos se ensina em formação de liderança no Brasil", explica Ana.
Onde buscar ajuda: o CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188, por chat e e-mail em cvv.org.br. O atendimento em saúde mental pelo SUS pode ser acessado nos CAPS e nas unidades básicas de saúde.
Sobre Ana Matos
É psicanalista, filósofa e escritora, com atuação em autoconhecimento, comportamento e performance humana. Estuda o comportamento humano há mais de 25 anos e atende há mais de 20 anos profissionais de alta liderança no Brasil e no exterior. É autora de O caminho para o inevitável encontro consigo mesmo e criadora do método Personal Soul Care™.

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