Cidade a Cidade - Informação simples e Imparcial

Quarta-feira, 15 de Abril de 2026
Cidade a Cidade
Cidade a Cidade

Mundo

Rússia mantém milhares de civis ucranianos presos

Ativistas estimam que 16 mil civis, que não tinham nenhuma relação com a guerra, foram detidos desde o início da invasão russa. Famílias buscam por notícias de ucranianos que desapareceram após prisão.

Cidade a Cidade
Por Cidade a Cidade
Rússia mantém milhares de civis ucranianos presos
Civis são mantidos presos na Rússia e nos territórios ucranianos ocupados/Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP/Getty Images
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Larysa Schewandina não vê o marido, Oleh Schewandin, há onze anos. Em maio de 2015, o atleta e presidente de uma federação de artes marciais foi sequestrado em sua cidade natal, Debaltseve, no leste da Ucrânia. Na época, a cidade já fazia parte da "República Popular" de Donetsk, proclamada um ano antes por separatistas pró-russos apoiados pelo Kremlin. Desde então, o casal falou apenas duas vezes, ambas nas primeiras 24 horas após a prisão.

Segundo testemunhas com quem Schewandina conversou, seu marido foi interceptado por homens armados e mascarados. Ele foi arrancado de seu carro, teve um saco colocado sobre a cabeça e foi levado para um local desconhecido.

Schewandina investigou o desaparecimento do marido por conta própria e, ao longo desse processo, fundou a organização de apoio "Ukraine Movement: Return Freedom". Segundo ela, o caso de seu marido foi tratado pelo Comitê da ONU contra o Desaparecimento Forçado (CED).

Publicidade

Leia Também:

"Infelizmente, a ONU não tem meios diretos de influência e, apesar de todos os esforços, ele continua preso", desabafa. "Onze anos em uma prisão russa é muito tempo. Quando se diz que cada dia é um inferno, é preciso multiplicar isso por 365 e depois novamente por onze."

Oleh Schewandin com sua esposa Larysa posa para foto em frente ao Coliseu, em Roma
Oleh Schewandin com sua esposa LarysaFoto: privat

A prisão de Oleh Schewandin foi uma das primeiras a se tornar conhecida nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia. Juridicamente, sua situação é classificada como "incomunicável", ou seja, isolamento total, sem comunicação, sem advogados e sem acusação formal.

Violação do direito internacional

Essa é a situação da maioria dos civis mantidos presos pela Rússia – e eles são muitos: desde o início da invasão russa da Ucrânia, milhares de civis desapareceram. Ativistas de direitos humanos estimam que pelo menos 16 mil ucranianos que não participaram de combates tenham sido presos pela Rússia.

Prisões arbitrárias violam o direito humanitário internacional. Civis são protegidos pela 4 ª Convenção de Genebra. "A Convenção de Genebra obviamente não permite que um país que invade o território de outro prenda e detenha um civil sem qualquer justificativa", afirma Jurij Kowbasa, representante do comissário de direitos humanos do Parlamento ucraniano.

O regime russo justifica as detenções com "resistência à operação militar especial", como a guerra na Ucrânia é chamada na Rússia, explica Michail Sawwa, do Centro para as Liberdades Civis da Ucrânia. "São pessoas que não têm absolutamente nenhum status jurídico, porque sua prisão viola não apenas o direito internacional, mas também as leis russas."

Kowbasa acrescenta que existe ainda outra categoria de prisioneiros. Nesse caso, a Rússia formalizou as detenções ao transmitir informações correspondentes ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha. "São cidadãos que talvez já tenham sido condenados por 'terrorismo' ou com base em sentenças forjadas", explica.

Sequestro e acusações de espionagem

O jornalista e ativista Serhij Zyhipa faz parte dessa segunda categoria. Em 2021, ele se aposentou e começou a escrever contos de fadas sobre sua cidade natal, Nova Kakhovka, na região de Kherson. Em uma das histórias, um espírito da água sequestra um personagem inspirado no próprio Zyhipa, que só pode ser libertado após a descoberta de sete chaves escondidas.

O conto acabaria se tornando realidade de forma cruel. Quando tropas russas ocuparam Nova Kakhovka no início de 2022, Zyhipa permaneceu no local para organizar ajuda humanitária e relatar a situação nas redes sociais. Em 12 de março de 2022, ele foi sequestrado.

Segundo a organização de direitos humanos Memorial, Zyhipa foi mantido por meses sem qualquer status processual oficial. Apenas em 26 de dezembro do mesmo ano foi aberto um processo criminal por espionagem. A Memorial considera Zyhipa um prisioneiro político.

Serhij, com um cachorro nos braços, posa para foto ao lado de sua esposa, Olena Zyhipa
Serhij e Olena ZyhipaFoto: privat

Sua esposa, Olena Zyhipa, assumiu a busca pelas "chaves" para a libertação do marido. Ativista de direitos humanos, ela participa da iniciativa "Civis em Cativeiro", que apoia civis detidos. "Está claro para mim que o destino dele não ficará mais fácil se eu apenas ficar sentada, sofrer e chorar", conta Olena.

Manter contato com o marido é extremamente difícil. A última carta que recebeu dele chegou em fevereiro, embora ela lhe escreva semanalmente e envie folhas em branco para resposta. "O fato de eu não receber respostas pode significar que minhas cartas não estão chegando até ele", afirma. Mas também é possível que o estado de saúde de seu marido tenha piorado. "Eles são mantidos em condições frias e úmidas."

Segundo ativistas de direitos humanos e a ONU, prisioneiros de guerra e civis ucranianos mantidos tanto na Rússia quanto nos territórios ocupados são sistematicamente torturados e submetidos a tratamentos cruéis. "Quando nossos defensores e até civis retornam do cativeiro, sempre relatam tortura e maus-tratos. Todos confirmam isso", afirma Kowbasa, do Parlamento ucraniano.

Quem acaba em cativeiros russos?

De acordo com Michail Sawwa, do Centro para as Liberdades Civis, as detenções atingem principalmente pessoas socialmente engajadas. Participantes de ações em apoio a civis presos relatam que os detidos atuavam, por exemplo, como voluntários ou motoristas em evacuações de civis de territórios ocupados, ou simplesmente expressavam abertamente opiniões pró-ucranianas.

"Eles representam uma ameaça aos olhos dos ocupantes, porque podem se tornar um ponto de articulação da resistência organizada", explica Sawwa. Ele acrescenta que as prisões em massa também servem para intimidar a população. "Demonstra-se literalmente a todos que isso pode acontecer com qualquer um."

O oficial reformado Serhij Lichomanow desapareceu no fim de 2023 por quase dois meses. Homens armados invadiram seu apartamento em Sebastopol, na Crimeia ocupada pela Rússia, e o levaram para um local desconhecido. Mais tarde, a família soube que ele estava preso. A Rússia acusa Lichomanow de traição e de planejar um atentado terrorista. A Memorial considera que se trata de uma perseguição politicamente motivada, envolvendo graves violações de direitos humanos.

Tatjana Selena (à esquerda) e Serhij Lichomanow (à direita) posam para foto ao lado de uma mulher não identificada
Tatjana Selena (à esquerda) e Serhij Lichomanow (à direita)Foto: privat

"Quero que meu irmão tenha a chance de levar uma vida normal, não na prisão, porque ele não merece isso, não fez nada de errado", diz sua irmã, Tatjana Selena. Ela acrescenta: "Acredito que ele foi preso apenas por ser um ex-militar ucraniano."

Selena deixou seu emprego para se dedicar integralmente à luta pela libertação do irmão. Caso ele seja libertado, ela não pretende encerrar seu ativismo. "Minha filha me pergunta se vou continuar mesmo quando Serhij voltar. Eu sempre digo que não sei. Então ela me diz que me conhece bem demais", conta Tatjana, rindo, e acrescenta que a filha está certa. Ela não quer parar, pelo menos não antes que aqueles que conheceu ao longo dos últimos anos também consigam tirar seus familiares da prisão.

FONTE/CRÉDITOS: Dasha Thyssen / DW Brasil
Comentários:
Cidade a Cidade

Publicado por:

Cidade a Cidade

Cidade a Cidade abrindo espaço para você, cadastre-se e tenha o portal do Usuário. Fique por dentro de tudo o que acontece na sua cidade, opine, mande sua informação, reclamação ou dica.

Saiba Mais

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!

Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível.