Uma série de ataques contra civis e bases militares na região sudoeste da Colômbia elevou os temores com a segurança a cerca de um mês das eleições gerais de 31 de maio, na qual a criminalidade deverá ser um dos principais temas.
Desde a sexta-feira passada (24/04), grupos rebeldes realizaram ao menos 31 ataques com explosivos e drones, incluindo uma explosão mortal no sábado numa rodovia entre as cidades de Cali e Popayán, de acordo com o Ministério da Defesa da Colômbia.
Um explosivo foi detonado quando vários veículos de transporte público e privado passavam pelo local. O número de mortos nessa explosão subiu para 21 nesta segunda-feira, e 56 ficaram feridos.
Além do ataque na rodovia Pan-Americana, no Departamento de Cauca, nos últimos dias ocorreram vários ataques no Departamento vizinho de Valle del Cauca, onde explosivos foram lançados contra unidades militares em Cali e Palmira.
Na sexta-feira passada, um ataque a uma base militar em Cali, a terceira maior cidade do país, deixou um morto e assinalou o início de uma série de ataques no vale e na região do rio Cauca.
Guerrilha de dissidentes das Farc
Essa escalada de violência é atribuída ao Estado Maior Central (EMC), um grupo dissidente das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) cujos combatentes se consideram herdeiros do projeto ideológico das Farc. O grupo é liderado por Nestor Vera, mais conhecido como Iván Mordisco, um ex-membro das Farc que se recusou a aderir ao acordo de paz firmado em 2016 com o governo do país.
Grupos como o EMC são conhecidos por cobrar impostos de moradores em áreas sob seu controle e por recrutar jovens à força para suas fileiras.
Sob a liderança de Gustavo Petro, um ex-membro de um grupo guerrilheiro, o governo colombiano tentou conduzir negociações de paz com os grupos rebeldes remanescentes por meio de uma estratégia conhecida como "paz total".
O governo ofereceu um cessar-fogo a vários grupos num esforço para promover negociações de paz, mas analistas afirmam que a estratégia fracassou porque esses grupos usaram a pausa no conflito para se reagrupar, rearmar e fortalecer seu controle sobre as comunidades.
"A política de paz do governo tem sido ingênua", disse Javier Garay, professor de ciência política da Universidade Externado, na Colômbia. "Eles pensaram que, se tivessem uma atitude condescendente em relação a esses grupos, receberiam uma resposta positiva."
No final de 2023, o EMC iniciou negociações de paz com o governo colombiano. Mas uma facção liderada por Mordisco abandonou as negociações em abril de 2024 e vem lutando contra o governo colombiano desde então.
O grupo de Mordisco é particularmente forte nos departamentos de Cauca e Valle del Cauca, onde luta pelo controle das rotas do narcotráfico e das minas de ouro ilegais.
Nos últimos dois anos, o grupo de Mordisco também utilizou ataques com drones e carros-bomba em resposta a uma ofensiva do Exército colombiano no Cânion de Micay, uma área remota coberta por plantações de coca que está sob o controle do EMC.
Petro vê sabotagem das eleições
A série de ataques é uma resposta às operações militares na região, disse o ministro colombiano da Defesa, Pedro Sanchez, que chamou as ações de "crimes de guerra" financiados principalmente pelo tráfico de cocaína. Ele afirmou que a presença militar e policial vai ser reforçada na região.
Cauca possui vastas extensões de cultivo ilícito de coca. Em 2025, ataques contra forças de segurança na região resultaram em vítimas civis, na pior onda de violência a que o país assistiu na última década.
Esta última onda de ataques agrava o clima de tensão na reta final da campanha para a eleição presidencial, em que a segurança tem sido uma questão central desde o homicídio do candidato de direita Miguel Uribe, morto a tiros num comício em junho de 2025.
O presidente Gustavo Petro, o primeiro de esquerda da história da Colômbia, eleito em 2022, vai deixar o cargo pouco depois do escrutínio, pois a Constituição o impede de concorrer a um novo mandato. Mas o candidato de seu partido, Iván Cepeda, prometeu continuar as negociações de paz com os grupos rebeldes.
Petro solicitou às forças de segurança da Colômbia que investiguem se os explosivos usados nos ataques de sábado vieram do Equador, cujo governo conservador iniciou recentemente uma guerra comercial com a Colômbia devido a questões de segurança em sua fronteira.
"Eles querem sabotar nossas eleições para que a extrema direita vença", disse Petro, sem especificar quem poderia estar tentando minar as eleições de maio. "Eles estão com medo", disse ele em um pronunciamento na televisão.
Os eleitores da Colômbia irão às urnas em 31 de maio para escolher o novo presidente. O cargo é disputado por 14 candidatos, incluindo Cepeda e os oposicionistas conservadores Abelardo de la Espriella e Paloma Valencia.
Enquanto Cepeda defende a continuidade da estratégia de "paz total" de Petro, seus rivais conservadores afirmaram que preferem confrontar os grupos rebeldes e aumentar a pressão militar sobre eles antes de retomar as negociações de paz.

Comentários: