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Segunda-feira, 13 de Abril de 2026
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O País das Maravilhas da Segunda Mão

Moda consciente em São Paulo: entre memórias, brechós e inovação, surgem novas formas de vestir com propósito, valorizando quem produz e reduzindo impactos no planeta.

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Por Cidade a Cidade
O País das Maravilhas da Segunda Mão
Mariana Marsicano
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Araras coloridas do brechó Dig For Fashion. Foto: Mariana Marsicano, para esta reportagem.

Mas você sabe, exatamente, o que seria um brechó? 

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Muito comuns nas ruas de São Paulo, e conhecidos por venderem roupas “usadas” e “velhas”, os brechós são mais do que isso: são estabelecimentos sustentáveis que dão mais uma chance para aqueles itens ainda em bom estado, mas que não são mais tão desejados pelos seus donos como antes. Ao comprar os itens de segunda mão, o cliente sai com objetos estilo “vintage”, ainda conservados, e com mais dinheiro no bolso - já que estes são vendidos por um preço bem abaixo do que nas lojas de departamento, por exemplo.  

Apesar de os brechós de roupas serem o tipo mais comum, a comercialização de itens usados se estende para móveis, louças, bijuterias e, até mesmo, objetos de uso doméstico. Além de ser uma oportunidade para aqueles que não possuem dinheiro suficiente para adquirir itens novos - mas que ainda não querem deixar de usufruir das funcionalidades deles -, é uma chance para os ditos “muquiranas” (ou os famosos mão-de-vaca), e até mesmo para os colecionadores obterem certos objetos que, pelo tempo, deixaram as prateleiras das lojas e se tornaram exclusivos.  

É, portanto, um suspiro de alívio e um sinal de esperança em um mundo movido pelo lucro a todo custo. 

 

Onde a moda sustentável está? 

Na casa da Leni, essa identidade é construída entre tecidos de chita, sacos de cimento e caixas de leite. Artesã e autodidata, ela transforma o que iria para o lixo em bolsas, sacolas e tapetes — sempre com atenção quase poética aos materiais. "Cortar tecido é uma terapia", diz. Lá é tudo feito à mão, as caixas de leite usadas em suas peças são lavadas com um sabão feito de óleo usado e água da chuva, tudo feito com os mínimos cuidados. O investimento é mínimo, mas o retorno é imenso".

Bolsas sustentáveis feitas de caixa de leite por Leni. Foto: Arquivo pessoal / Leni

Agora, na grande capital de São Paulo, no bairro nobre Higienópolis, o brechó Peça Rara é o lugar que não se faz despercebido, as vitrines arrumadas e a placa grande amarelo gema faz pura presença na rua Maria Antônia, do lado da faculdade Mackenzie em que tantos estudantes vão e vem, o led amarelo acende a calçada. Edmiler, gerente da loja e fashion hunter, vê o brechó como mais que um negócio, com mais de 130 lojas no país, ele diz: “A gente quer ser o McDonald 's dos brechós. A ideia é prolongar ao máximo a vida útil das peças e tornar a moda circular um comportamento em massa” 

Fachada do brechó Peça Rara na Rua Maria Antônia, em São Paulo.

Foto: Ricardo Reis, para esta reportagem.

A alguns quilômetros de distância, a Dig For Fashion marca presença em uma das ruas mais badaladas de São Paulo: a Augusta. Diferente do Peça Rara, não tem amarelo nas vitrines, mas um rosa brilhante que contrasta com os prédios antigos e os carros acinzentados ao redor. No meio da longa avenida, o Pink salta aos olhos. Ao cruzar a porta da loja, um leve cheiro de cigarro e queimado fica para trás, dando lugar a um ambiente vibrante: roupas organizadas por estilo, cor e tamanho dividem espaço com o som de risadas entre os funcionários, que dobram peças com leveza. 

À frente da loja, a gerente interina Jaqueline acompanha de perto o crescimento da marca, que já conta com 17 unidades e planos de expansão. Para ela, o diferencial está na escuta e na inclusão: “95% dos nossos funcionários são mulheres, mães ou LGBTQIA +. A moda precisa ser acessível para todos os públicos, em todos os sentidos”, afirma. 

Como o custo funciona?  

Para Leni, não há etiquetas penduradas nem vitrines iluminadas, mas sim várias prateleiras cheias de materiais, caixas, artes para acabar, muita dedicação e memória. Cada peça é feita a mão“Eu não gasto quase nada, só com linha, agulha, zíper... O resto é tudo doação: tecido, saco de cimento, caixa de leite.” Ainda assim, o valor de uma bolsa vai além do material: há cuidado em higienizar, modelar, costurar.  “Não dá pra fazer com pressa. Cada peça tem um protótipo”. Os preços são acessíveis, mas flutuam conforme o trabalho envolvido – e muitas vezes, o retorno emocional “Faço porta-vinhos com formato de embalagem de infância. Tem gente que compra pela memória.”. 

Bolsa feita de sacos de cimento à mão pela Leni. Foto: Arquivo pessoal / Leni

No Peça Rara, o modelo é o da consignação. Qualquer pessoa pode levar suas peças e, se aprovadas, elas ficam na loja por 90 dias. Caso não sejam vendidas, podem ser devolvidas ou doadas. A curadoria é rigorosa e o espaço é dividido em estilos: streetwear, social, casual e até grifes nacionais e internacionais. “Funciona como uma loja de coleção, com troca de peças por estação”, explica Edmiler. Os preços variam bastante, mas seguem uma lógica de mercado — mais baixos que lojas convencionais, mas com curadoria e apresentação que justificam o valor agregado. 

Já na Dig For Fashion, a troca é um dos motores. A cada peça levada para avaliação, o cliente pode optar por receber o pagamento via Pix ou ganhar 30% de crédito na loja. A ideia é estimular o desapego e o reaproveitamento. “A gente trabalha com compra, venda e troca. O cliente pode sair com um look novo sem gastar quase nada”, diz Jaqueline. A curadoria é feita na loja, sem agendamento, e a loja é organizada por cor, tamanho e setor para facilitar o garimpo. “A gente mantém os preços acessíveis de verdade. Nosso princípio é ter preço de brechó com qualidade de loja.” 

Fachada do Dig For Fashion na Augusta. Foto: Mariana Marsicano, para esta reportagem.

Enquanto a artesã Leni transforma resíduos em afeto, os brechós estruturam as redes de economia circular com modelos de negócio cada vez mais profissionais. O que os une é o mesmo propósito: fazer da roupa um símbolo de consciência– e não apenas de consumismo. 

 

Roupa velha não é roupa ruim 

"Mundo encantado da segunda mão", placa neon na Dig For Fashion. Foto: Mariana Marsicano, para esta reportagem.

Apesar do crescimento da moda circular, ainda existe quem torça o nariz para roupas de segunda mão. O preconceito é antigo e enraizado: brechó é visto como bagunçado, com peças sujas ou "roupa de gente morta". “Tem gente que entra na loja, olha em volta, ouve a palavra ‘brechó’ e sai sem dizer nada”, consta Jaqueline, da Dig for Fashion. Para ela, isso revela muito mais do que uma questão estética — é reflexo de uma cultura que associa valor ao novo, ao caro, ao que brilha.  

Esse olhar nasce de um sistema que nos ensinou que repetir roupa é sinônimo de fracasso, e que comprar muito é sinal de sucesso. É o capitalismo em sua versão mais vaidosa, onde status importa mais do que propósito. Mas a moda sustentável surge justamente como uma resposta a esse modelo. Em um mundo sufocado pelo consumo rápido, onde roupas são descartadas na mesma velocidade com que chegam às vitrines, ela nos obriga a parar, pensar — e resistir. 

A indústria da moda está entre as mais poluentes do planeta: rios intoxicados por corantes, toneladas de tecidos descartados e trabalho humano explorado. Escolher o brechó é mais do que uma alternativa: é um ato político. Cada peça reaproveitada, cada look montado com história, é um passo em direção a um consumo mais justo e consciente. Roupas de segunda mão fogem da lógica do descarte, prolongam a vida útil do que já existe e tiram o foco do lucro fácil. 

“Tem gente que acha que roupa de brechó é de morto. É preconceito e ignorância sobre a urgência ambiental”, diz Edmiler, do Peça Rara. Para mudar essa visão, os brechós estão apostando não só na curadoria, mas também na experiência. Ambientes organizados, perfumados, estilos separados por cores, playlists que criam uma atmosfera acolhedora — tudo isso ajuda a desconstruir a ideia de que roupa usada é roupa ruim. 

A estética muda, mas o que mais transforma é o pensamento. A moda sustentável propõe que a roupa não seja símbolo de status, mas de consciência. E isso, para muita gente, ainda é revolucionário. “Eles vendem camiseta por cinco reais, mas quem costurou essa camiseta? Em que condições?”, provoca Jaqueline, referindo-se aos gigantes do fast fashion. A moda consciente responde com outra pergunta: por que não dar uma nova chance a algo que já existe, carrega história e ainda está em perfeito estado? 

A boa notícia? Os ventos estão mudando. A juventude tem sido protagonista dessa mudança. Mais informados, mais conscientes, mais conectados com o futuro. “Eles entendem o que está em jogo. Não é só sobre moda, é sobre o planeta, é sobre trabalho justo, é sobre futuro”, reforça Edmiler. “Quem conhece, não volta atrás.” E quem experimenta, costuma se encantar. 

 

Contra os Gigantes em um embate silencioso 

Se, de um lado, a moda sustentável cresce com pequenos passos e muitos remendos, do outro lado da passarela há um oponente veloz, bem financiado e aparentemente imbatível: as gigantes lojas online. Plataformas como SHEIN e Shopee oferecem roupas por preços tão baixos que parecem irreais — e muitas vezes, são mesmo. Com produção em alta escala, mão de obra seriamente precarizada e materiais usados em excesso sendo descartados toda hora, essas peças têm um preço ambiental e humano que não aparece no tão desejado carrinho de compras desses carrinhos. A SHEIN, por exemplo, emitiu cerca de 6,3 milhões de toneladas de CO₂ em 2023, com 76 % de suas peças feitas de poliéster e apenas 6 % recicladas. E é esse tipo de “pegada ambiental invisível” que pesa no planeta e passa despercebido pelos consumidores. 

O mercado global de fast fashion valeu US$ 123 bilhões em 2023 e, até 2027, deve crescer para US$ 185 bilhões. Além disso, o setor gera cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, sendo que menos de 1 % dessas roupas é reciclado. Isso equivale a um caminhão de roupas descartáveis a cada segundo, um ciclo de consumo que os brechós e lojas sustentáveis tentam lutar contra. Na visão de Jaqueline, da Dig, “eles vendem camiseta por cinco reais, mas quem costurou essa camiseta? Em que condições?”. 

Edmiler, do Peça Rara, acredita que a resposta está na reeducação do desejo. “A lógica da SHEIN é simples: quanto mais você compra, mais quer. A gente propõe o oposto: escolha melhor, compre menos, cuide mais.” Ele aposta que o caminho está no pertencimento. “Quando você compra uma peça de brechó, ela tem uma história, uma identidade. Isso não tem algoritmo que reproduza.” 

Mesmo diante dos dados e algoritmos, da velocidade das trends e dos tão adorados fretes grátis, os brechós continuam.  “É uma disputa desigual, mas não impossível”, diz Jaqueline. “A gente tem o tempo a nosso favor. Porque a urgência climática, a crise hídrica e a luta por direitos humanos estão pressionando o sistema. Mais cedo ou mais tarde, quem ignora isso vai ter que mudar — ou vai ficar pra trás.” 

 

 A moda sustentável vai muito além da estética, do preço ou até da própria ideia de sustentabilidade. Ela propõe uma mudança profunda na forma como nos relacionamos com o consumo. Cada peça reaproveitada — seja um tecido, uma roupa antiga ou um material que ganharia outro destino — carrega um potencial transformador. Escolher prolongar a vida útil de uma roupa não apenas evita o desperdício de recursos naturais, mas também ajuda a frear os impactos ambientais da indústria têxtil.

Mais do que uma tendência, o pensamento sustentável convida a uma reflexão crítica: de onde vem o que vestimos? Qual é a real necessidade de adquirir algo novo? Comprar em brechós, valorizar o feito à mão ou reutilizar materiais é também um ato de consciência — uma forma de vestir o corpo sem despir o planeta.

 

 

FONTE/CRÉDITOS: Mariana Marsicano, Ricardo Reis e Leonardo Marianno e Camille Zanatta
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