Os eleitores suíços irão às urnas no próximo domingo (14/06) em um referendo proposto por um partido de direita nacionalista para limitar a população a 10 milhões de pessoas.
A iniciativa surgiu após um crescimento populacional acelerado, que elevou o total de habitantes para 9,1 milhões no ano passado, contra 7,3 milhões em 2002. E os estrangeiros representam quase 28% da população atual.
Pela proposta, se a população ultrapassar 9,5 milhões, o governo seria obrigado a tomar medidas para impedir que o país ultrapasse a marca de 10 milhões, incluindo rejeitar pedidos de refugiados e de unificação familiar, com a possibilidade de levar o país a encerrar seu acordo de livre circulação com a União Europeia (UE).
Os defensores da iniciativa deixam claro que estão insatisfeitos com a chegada de estrangeiros de países vizinhos da União Europeia e afirmam que a infraestrutura, a habitação, os programas sociais, os recursos naturais e o estilo de vida da Suíça estão sob pressão devido ao crescimento demográfico.
Já o governo suíço se opõe à iniciativa, lançada pela legenda Partido Popular Suíço (SVP), alegando que ela prejudicará a cooperação com a UE, principal parceira comercial do país, e afetará a economia.
"Alemães fora"?
Os opositores também citam preocupações de que um limite legal à imigração levaria a uma ruptura com a UE, e alertam que a economia suíça precisa de mão de obra estrangeira qualificada.
Uma reportagem recente da revista alemã Der Spiegel enfatizou que, para evitar que o país ultrapasse a marca dos dez milhões, o número de imigrantes de outros países europeus – principalmente Alemanha e Itália – também teria que ser reduzido.
Segundo a revista, os alemães – o maior grupo de residentes estrangeiros em solo suíço ao lado dos italianos – competem com os suíços por empregos bem remunerados, cargos de gerência e moradias. A reportagem afirma ainda que eles nem sempre são bem quistos entre os suíços, que muitas vezes os acusam de carecer de "decência" e "humildade".
Racismo em alta
A iniciativa com o chamativo título de "Não à Suíça de dez milhões" vem atraindo interesse de grupos de ultradireita em toda a Europa.
O SVP quer que o número de residentes permanentes no país seja consagrado na Constituição – algo inédito em qualquer Estado soberano do mundo.
Afastar a Suíça de influências externas tem sido, há muito tempo, uma bandeira do SVP. Seu antigo líder, Christoph Blocher, de 85 anos, declarou recentemente ao tabloide Blick que "está vindo gente demais, e gente errada. Isso tem que parar". Ele alegou que, caso contrário, o "DNA" de sua pátria será prejudicado.

Há anos, o SVP tem convocado repetidamente os cidadãos às urnas para angariar apoio em sua luta contra uma suposta infiltração estrangeira. As campanhas focam em questões como imigração em massa, superpopulação, elaboração de leis de asilo mais rigorosas ou na deportação de estrangeiros que cometerem crimes.
O partido costuma realizar campanhas por todo o país com slogans como "preserve o que amamos", ou "proteja a Suíça".
Desta vez, a proposta também tem gerado interesse de eleitores de tendência conservadora, como apoiadores das legendas de centro-direita, como o Partido Liberal Democrático e O Centro, cujos líderes alertaram contra a iniciativa, mas que parte de suas base parece ignorar. No ano passado, as autoridades suíças registraram um número recorde de incidentes de insultos racistas e discriminação no país.
Referendo divide os suíços
No passado, as iniciativas do SVP geralmente fracassavam devido à oposição do eleitorado cosmopolita de regiões como Zurique, Basileia, Genebra e outros centros urbano.
Desta vez, porém, o país parece estar dividido. Segundo uma pesquisa realizada pela GFS Bern para a emissora pública SRG, publicada na semana passada, cerca de 52% dos 19,4 mil entrevistados são contrários à proposta, com 45% a favor. O restante estava indeciso.
Um levantamento anterior, realizado no final de abril, mostrou os suíços igualmente divididos, com 47% a favor e 47% contra.
O think tank suíço Demografik calculou que, se a proposta do SVP for adotada, a produção econômica do país poderia ser reduzida em até 12% até o final do século. Os setores de saúde, hotelaria, TI e construção seriam particularmente afetados pela escassez de mão de obra.


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