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O euro atingiu na manhã de segunda-feira (05/10) o menor nível em 17 meses frente ao dólar (1,12 dólar), acumulando queda de cerca de 5% desde o início do ano. As preocupações com a dívida da zona do euro, especialmente na França, se somam às inquietações dos investidores sobre os rendimentos dos títulos públicos globais e a alta dos preços do petróleo.
Para Ricardo Amaro, economista-chefe para a zona do euro da Oxford Economics, a tendência geral de queda pode ser atribuída à reavaliação das expectativas dos investidores em relação à política do Federal Reserve (FED), o banco central dos Estados Unidos, de juros mais altos diante da elevação dos rendimentos dos títulos globais.
No entanto, segundo ele, a mais recente onda de vendas foi desencadeada principalmente pelas preocupações com a França, onde "os investidores passaram a precificar um risco fiscal maior".
O problema francês
A venda de títulos da dívida francesa ganhou força na semana passada, à medida que aumentaram as dúvidas sobre sua sustentabilidade de longo prazo. O rendimento dos títulos públicos franceses de dez anos, que representa o custo que a França paga para tomar empréstimos com vencimento em dez anos, chegou a 5% antes de recuar ligeiramente.
A França enfrenta problemas fiscais estruturais há muito tempo. Desde que o presidente Emmanuel Macron assumiu o cargo, em maio de 2017, os gastos públicos aumentaram, enquanto ele implementou profundos cortes de impostos. Como resultado, a dívida nacional do país cresceu em mais de 1 trilhão de euros (1,12 trilhão de dólares).
A dívida da França equivale hoje a quase 118% do seu Produto Interno Bruto (PIB). O país registra recorrentes desequilíbrios no orçamento. Seu déficit orçamentário anual supera regularmente 5%, acima dos 3,4% registrados quando Macron assumiu a Presidência.

Para muitos investidores, preocupações mais amplas com o baixo crescimento da zona do euro e a disparada dos preços da energia contribuíram para o foco renovado sobre a França, levando muitos deles a migrar para alternativas consideradas mais seguras, como os títulos da dívida pública alemã.
A diferença entre os rendimentos dos títulos públicos de dez anos da França e da Alemanha atingiu na semana passada o maior nível desde a crise da dívida da zona do euro nos anos 2010, um indicador sobre a estabilidade financeira da União Europeia (UE).
O que o Banco Central Europeu pode fazer
A pressão resultante sobre o euro e outros mercados de títulos públicos, incluindo o da Itália, gerou pedidos para que o Banco Central Europeu (BCE) intervenha, a fim de evitar que as preocupações com a França se transformem em pânico.
Jim Reid, do Deutsche Bank, afirmou em nota divulgada na segunda-feira que, em determinado momento da semana passada, o diferencial entre os títulos alemães e franceses havia se ampliado tanto que uma "minicrise de pânico" parecia iminente.
"A grande questão é saber se este é o início de uma nova crise das dívidas soberanas na zona do euro ou se os mercados já exageraram na reação", afirmou.
Amaro avalia que a situação representa um desafio para o BCE, que precisa agir sem agravar o problema. "Adotar um discurso excessivamente duro também aumentaria a pressão sobre os rendimentos dos títulos franceses, que se tornaram um fator importante para a fraqueza do euro", acrescentou.
Ele espera que os formuladores de política monetária continuem monitorando os movimentos cambiais entre o dólar e o euro, mas sem tentar influenciar diretamente o mercado por enquanto.
O que está em jogo
A incerteza é alimentada tanto por pressões políticas quanto econômicas. Nos últimos anos, a França tem sido marcada por crises políticas, e a aprovação dos orçamentos anuais virou um teste para a estabilidade dos governos.
Embora o orçamento de 2027 já tenha sido aprovado, com reformas destinadas a reduzir o déficit, o partido radical de direita Reagrupamento Nacional continua bem posicionado para a eleição presidencial de 2027, na qual Marine Le Pen é apontada como provável principal candidata da sigla.

As preocupações sobre a política econômica francesa em caso de uma vitória de Le Pen assustam investidores, de forma semelhante às dúvidas levantadas pelo crescimento da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de ultradireita alemão, sobre os rumos futuros da principal economia do bloco.
Grande parte da instabilidade política tem sido impulsionada pela insatisfação dos eleitores com o elevado custo de vida. Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez recentemente convocou eleições antecipadas, depois que medidas voltadas para enfrentar a crise habitacional foram rejeitadas pelo Parlamento.
"Uma desvalorização mais acentuada do euro reforçaria o choque inflacionário em um momento em que já se espera que a inflação permaneça elevada até 2027", acrescenta Amaro.
A desvalorização do euro encarece os produtos importados, especialmente aqueles cotados em dólares. Commodities globais como petróleo e gás são negociadas em dólares, o que significa que o aumento dos preços da energia provavelmente se tornaria ainda maior, assim como o custo das importações provenientes dos Estados Unidos.
A próxima crise financeira?
Com a crise das dívidas soberanas dos anos 2010 ainda viva na memória da UE, muitos analistas começam a se perguntar se os movimentos observados nos títulos franceses podem indicar o surgimento de uma nova crise na zona do euro.
Alguns especialistas, como Geoffrey Yu, estrategista sênior do BNY, consideram essas preocupações exageradas. "As comparações com 2012 estão totalmente fora de lugar", afirmou.
No entanto, Amaro avalia que a expectativa de novas altas de juros por parte do BCE neste ano, combinada com a piora das perspectivas para a inflação, torna essa uma situação que exige acompanhamento e gestão muito cuidadosos.
"A fraqueza do euro não deve ser interpretada como um fenômeno isolado", afirmou. "Se ela for desencadeada por preocupações crescentes com a situação fiscal da França, o BCE certamente terá de agir com cautela diante dos riscos para a zona do euro."

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